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FSM 2005: Gays, negros e feministas contra capital

fev 3, 2005 | Geral

A cada dois dias, uma pessoa é assassinada no Brasil por ser gay, lésbica, transexual ou travesti. A cada 15 segundos, uma mulher brasileira é violentada. Entre elas, as negras são as mais agredidas. Não é, portanto, à toa que homofobia, sexismo e racismo são pautas fortemente presentes nos debates deste Fórum Social Mundial. Não é, portanto, à toa que essas três formas de opressão estão enraizadamente unificadas na cultura brasileira. Não é, portanto, à toa que os movimentos homossexual, feminista e negro decidiram construir alianças mais amplas e traçar estratégias comuns de ação que possibilitem avançar nesta luta – que se tornou mais difícil de ser conduzida dentro da sociedade capitalista.

Se homofobia, sexismo e racismo já existiam antes do advento do capital, o capitalismo veio para potecializar essas formas de dominação. A homofobia, antes reprimida apenas pelas religiões, passa a enfrentar a ciência quando o homossexualismo é caracterizado como doença, desvio. O sexismo se transforma na base da sociedade produtora patriarcal. E o racismo exacerba como o desenvolvimento industrial dá caráter científico à distinção das pessoas pela raça.

“Durante boa parte dos séculos XIX e XX, houve tentativas de diferenciação do ser humano pela sua pele e etnia, de justificar a dominação imperialista e capitalista pela inferioridade do outro. Eles, brancos europeus, eram superiores, e por isso se sentiam no direito de dominar. Daí vieram os processos de escravização da população africana e indígena nas Américas”, explica Paulo Tavares Mariante, coordenador de direitos humanos do grupo Identidade. “O capitalismo é um processo que potencializa essa dominação e torna mais difícil sua superação. Daí nossa urgência em espaços comuns para unificar lutas e construir um programa político emancipatório”, afirma.

As buscas por esses espaços tiveram início na década de 80. O processo não avançou, no entanto, porque – e isso os próprios movimentos admitem – há um receio de que suas pautas próprias se percam numa plataforma mais ampla. “O movimento negro ainda não está preparado para fazer a discussão dos negros homens e mulheres homossexuais. Existe uma resistência dentro das organizações porque esta nunca foi a nossa pauta. Apoiamos, mas há resistência. Precisamos dos gays negros; que eles venham para fazer o debate do homossexualismo dentro do movimento”, ressalta Daise Benedito, articuladora de direitos humanos da organização Fala Preta!, membro do Movimento Nacional e da Rede Latino-americana de Direitos Humanos.

Para Daise, vivemos em um país que constrói uma identidade criminosa dos negros e que, ao mesmo tempo, padroniza a beleza entorno daquilo que é branco, hegemônico e machista. “Por conta deste modelo único de beleza, os homens negros nunca conseguem ser os gatões da Capricho! Para os negros que têm uma opção sexual, a situação é ainda mais complicada. O homem negro não pode ser homossexual. Como é que um “negão fortão” vai ser bicha? Dentro dessas construções, essas pessoas são ultrajadas no seu cotidiano. É urgente que lutemos pela desconstrução desta lógica”, afirma.

Os primeiros passos de uma articulação de combate à homofobia, sexismo e racismo começam lentamente a serem dados. Um exemplo: o último Congresso de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais aprovou, como uma de suas resoluções finais, a legalização do aborto. No mundo machista e na pauta feminista, este é um enfrentamento muito grande para ser feito somente pelas mulheres, acreditam os movimentos. “Por isso a importância de se enxergar além do próprio umbigo e ter ousadia para brigar por outro mundo possível”, acredita Mariante.

Esquerda na berlinda

Articular movimentos diversos na luta contra a opressão passa, antes, pela conscientização da própria esquerda acerca da essencialidade deste debate. A discussão certamente está pautada no Fórum Social Mundial, mas ainda não foi assimilada como central pela esquerda brasileira. Nem pela mundial. “Na União Soviética e nos países do Leste Europeu, existia até pouco tempo a internação compulsória para os homossexuais. Em Cuba, um país que admiramos por sua luta contra o imperialismo, havia e há repressão aos homossexuais. A esquerda quer negar este passado, mas parte dela esquerda ainda diz que a homofobia é um desvio. Ficar aí significa compreender que nossas lutas são separadas. Mas, num horizonte tático, precisamos aprofundar nossas lutas. É falso hierarquizar e dizer que antes é preciso superar a dominação econômica para depois superar as demais. A dimensão da superação da dominação do capitalismo sobre o trabalho passa por isso”, afirma o representante do Identidade.

Abaixo, uma carta aberta do movimento de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais ao Fórum Social Mundial.

Sem Homofobia, um outro mundo é possível!

Carta aberta ao V Fórum Social Mundial

A presença de lésbicas, gays, travestis, transexuais e bissexuais no Fórum Social Mundial vem ocorrendo desde 2001, mesmo que sem uma articulação com a organização deste processo, e somente a partir da iniciativa de organizações de base, face à omissão das entidades gerais e internacionais.

Nossa participação sempre se pautou pelos seguintes pontos: por um lado, é ingenuidade acreditar-se que a superação da ho0mofobia possa ocorrer nos marcos de uma sociedade onde mais de um terço da população planetária vive abaixo da linha da miséria, sem qualquer acesso aos direitos humanos mais elementares. Ao mesmo tempo, reafirmamos que não haverá um novo mundo sem que, a par das transformações sócio-econômicas, sejam enfrentadas as seculares opressões que há tanto afligem a humanidade, como o racismo, o sexismo e a homofobia.

Sobrevivemos à inquisição da Igreja Católica, ao holocausto nazista e às internações psiquiátricas compulsórias do stalinismo e, por muito tempo nossa forma de luta foi exclusivamente a vivência de nossa sexualidade, ainda que de maneira clandestina, mas sempre na resistência à homofobia e ao heterossexismo. E essa ainda tem sido a possibilidade de luta de lésbicas, gays, travestis, transexuais e bissexuais, em países onde, mesmo em nossos dias, a homossexualidade e a diversidade sexual ainda são punidas e em muitos casos de maneira grave, chegando até mesmo à pena de morte.

Mas nós, que estamos aqui no V FSM, acreditamos nas possibilidades de uma nova existência planetária onde esta ordem capitalista e imperialista, promotora de guerras e ocupações contra diversos países, mantenedora deste quadro de exclusão social e exploração do trabalho, seja um dia de fato vencida pela mobilização da ampla maioria dos povos do mundo, na perspectiva de uma sociedade socialista. E para as pessoas que têm uma orientação sexual e/ou uma identidade de gênero diversa das dominantes, a afirmação aberta e livre de nossa afetividade é uma das marcas de nossa rebelião.

A humanidade pode construir um outro destino, onde a espoliação social e econômica de muitos por poucos, a destruição do meio ambiente por uma lógica predatória, a opressão de mulheres e homens em decorrência de gênero, raça ou etnia, origem regional ou nacional e orientação sexual, assim como outras faces deste modelo neoliberal, sejam enfim superadas. Mas esta construção exige um enorme esforço de todos nós, para pensarmos além das questões que nos tocam diretamente, e compreendemos que uma forma de opressão não será abolida enquanto as demais permanecerem. Tão importante quanto derrubar as cercas do latifúndio e as amarras da dominação econômica, é destruir os invisíveis “muros” do ódio, da intolerância e da opressão a lésbicas, gays, travestis, transexuais e bissexuais.

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