Denúncia de contratação de consultores ligados ao executivo sem licitação levam à demissão; Rossano Maranhão, diretor de carreira da instituição, assume interinamente
A contratação sem licitação de três consultores do Banco do Brasil foi o estopim da demissão do presidente da instituição, Cássio Casseb, confirmada nesta terça-feira pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Oficialmente, Casseb pediu demissão, mas, nos bastidores, as pressões pela sua saída já vinham desde junho, quando a instituição chegou a aprovar um patrocínio de R$ 70 mil para um show em benefício do PT. Para seu lugar no comando do BB, foi nomeado interinamente o atual vice-presidente da área internacional, Rossano Maranhão Pinto.
A denúncia de que Casseb interferiu diretamente para a contratação de três executivos que trabalharam com ele no board da Credicard, empresa que presidiu, partiu justamente do grupo que queria derrubá-lo. O assunto veio à tona em reportagem desta terça do jornal Folha de S.Paulo. Os três ex-executivos da Credicard foram contratados pelo critério de saber específico para ajudar na implementação do programa Banco Popular do Brasil, de concessão de microcrédito. Pela consultoria, recebem entre R$ 540 mil e R$ 820 mil ao ano.
Em entrevista concedida para confirmar a saída do presidente do BB, Palocci disse que desde a indicação de Casseb para o cargo já havia ficado acertado que ele ficaria, no máximo, dois anos à frente da instituição. Palocci disse, ainda, que pediu que Casseb continue prestando algum serviço ao banco, como membro do conselho de administração, mas ele ainda não teria respondido.
Palocci elogiou a condução do BB na gestão de Casseb. Na avaliação dele, os números revelam a “excelência” do presidente demissionário. “Enquanto o índice Ibovespa [índice das ações mais negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo] teve uma valorização de 126%, as ações do BB subiram 268%”, afirmou o ministro.
O nome de Rossano Maranhão será submetido ao conselho de administração do banco, que é o órgão que legitima a indicação para a presidência do banco. Apesar de confirmar a interinidade do cargo, Palocci não descartou a possibilidade de permanência do economista à frente da instituição por mais tempo. “Não há nenhuma data e não me sinto. Mas eu penso que, se ele pode ser presidente interino, ele também pode ser presidente”, disse o ministro.
O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, confirmou hoje a saída de Cássio Casseb, 49, da presidência do Banco do Brasil. No lugar de Casseb ficará, interinamente, Rossano Maranhão Pinto, presidente do conselho do BB, e vice-presidente da área internacional e de atacado do banco.
Maranhão é funcionário de carreira do banco. Começou no BB em 1976. Foi um dos dois diretores que permaneceram na instituição após o presidente Lula assumir o governo.
Casseb esteve presente no anúncio da demissão, mas evitou dar muitas declarações. “Está na hora de voltar para a casa”, afirmou. Ele estava no cargo desde 29 de janeiro do ano passado. Episódios ocorridos no primeiro semestre deste ano começaram a minar sua permanência no cargo.
Em junho, o BB aprovou um patrocínio de R$ 70 mil para um show da dupla Zezé di Camargo & Luciano que, por sua vez, seria uma forma de arrecadar fundos para o PT. Casseb estava viajando quando o patrocínio foi aprovado e depois recuou da decisão, mas as críticas foram o início de uma fase turbulenta. Na mesma época, ele foi espionado pela Kroll ao participar de um seminário em Lisboa.
Semanas depois, reportagens feitas a partir de vazamento de informações da CPI do Banestado revelaram nove movimentações em nome de Casseb que totalizam US$ 593,855 mil (o equivalente a R$ 1,1 milhão pelo câmbio dos dias de cada operação) entre junho de 1999 e maio de 2002. A explicação dada pelo presidente do BB foi considerada insatisfatória por setores do PT, que começaram a pleitear o cargo para um membro do quadro do partido.
O episódio da contratação dos consultores foi a gota d’água. Boanerges Ramos Freire, James Rubio e Joaquim Xavier da Silveira foram escolhidos por supostamente terem experiência no mercado de microcrédito. Rubio e Silveira trabalharam diretamente com Casseb. O último foi colega do ex-presidente do BB também no Citibank.
Cargo disputado
Entre os cotados para assumir em definitivo a presidência do BB estão Sérgio Rosa, presidente da Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, e Nelson Rocha, atual presidente da BBTVM, ex-secretário de Planejamento de Ribeirão Preto e diretor do Banco Ribeirão Preto, amigo pessoal de Palocci.
Os dois são nomes ligados ao PT. Rosa tem boa relação com o secretário de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica, Luiz Gushiken. Ambos têm um histórico comum de militância dentro do movimento sindical e na área de previdência privada.
Já o mercado prefere um nome “técnico”, o que dá a Rossano Maranhão alguma chance de permanecer no posto. Além de ser funcionário de carreira, ele integra o grupo de executivos do BB que não foram substituídos com a chegada do PT ao poder. O outro é Ricardo Conceição, vice-presidente de agronegócios do banco.
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