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Covardia: Exército de Israel usa menino como escudo

abr 29, 2004 | Geral


Há tempos que as entidades de defesa dos direitos humanos e organismos internacionais ligados às Nações Unidas vêm denunciando que o exército e a polícia israelenses praticam cotidianamente abusos e violências de todo tipo contra crianças e jovens palestinos.

Em novembro do ano passado (2003), a Assembléia Geral da ONU chegou a aprovar uma resolução que obriga Israel a proteger as crianças palestinas em suas ações militares. A resolução, apresentada pelo Egito, obteve 86 votos a favor e 4 contra (EUA, Israel, Micronésia e Ilhas Marshall). Mas assim como fez com todas as outras resoluções da ONU que o condenava, o Estado de Israel também ignorou esta.

Os agentes de segurança israelenses oferecem, diariamente, provas de enorme descaso com as recomendações da ONU e com as leis internacionais de proteção aos direitos humanos de crianças e adolescentes.

Dados recentes da organização Defence for Children International aponta que desde o início da atual intifada (em setembro de 2000), 523 crianças palestinas foram mortas por israelenses, 130 delas só em 2003, e pelo menos 550 crianças foram presas. A contabilização foi feita até o dia 1º de março de 2004. De lá pra cá, mais nove crianças palestinas foram assassinadas e dezenas ficaram feridas em ataques do exército de Israel.

Nesta segunda-feira, soldados israelenses mataram um garoto palestino de 14 anos na Faixa de Gaza. Testemunhas dizem que ele estava entre uma multidão de jovens que atiravam pedras contra tanques israelenses em Beit Lahya, no norte de Gaza. A rádio palestina Voz da Palestina disse que um franco-atirador posicionado em uma torre militar acertou Musa Ibrahim Al-Muqayad nas costas.

Em outro incidente, médicos dizem que uma palestina de 15 anos, com problemas mentais, foi alvejada por soldados israelenses quando ela se aproximou de um assentamento próximo a Rafah, no sul da Faixa de Gaza.

Escudo humano

Mas o episódio recente, envolvendo uma criança palestina, que teve maior repercussão na mídia, talvez por ter sido registrado em fotografia, foi o do garoto Muhammed Badwan, de 13 anos. Na semana passada, soldados israelenses que patrulhavam a aldeia de Biddu amarraram o garoto num jipe do exército israelense e o utilizaram como escudo humano para proteger os soldados das pedras que eram jogadas por outros jovens palestinos.

A denúncia foi apresentada à imprensa pelo grupo Rabinos pelos Direitos Humanos. Um de seus principais ativistas, o rabino Arik Asherman, foi testemunha do fato e também utilizado como escudo humano, após ser detido por defender o jovem árabe.

“É horrível e muito triste ver como temos chegado a esta situação onde os israelenses fazem coisas como esta”, disse Asherman.

“Utilizaram o menino como escudo humano. Fiquei muito nervoso quando o vi atado ao jipe. É uma imagem inesquecível. Estava muito assustado!”, comenta Saeed Badwan, 34 anos e pai do garoto.

Nos últimos meses, o exército e a polícia das fronteiras israelenses têm aumentado o nível da repressão contra os manifestantes na zona do muro de segurança que Telaviv constrói em Cisjordânia.

Violência disseminada

Apesar de chocante e grotesco, o episódio envolvendo o jovem Muhammed não é um fato isolado. Dezenas de sítios na internet se dedicam a registrar as atrocidades cometidas contras crianças no conflito entre israelenses e palestinos.

De acordo com uma porta-voz do Programa Internacional de Defesa das Crianças (DCI) — entidade não-governamental que atua no Oriente Médio desde 1992 e funciona como órgão consultivo da Organização das Nações Unidas (ONU) —, o exército israelense não diferencia adultos e crianças em ofensivas militares na Palestina e o grande número de crianças mortas e feridas permite concluir que elas se tornaram alvos preferenciais de ataques militares.

Em nota oficial, Pierre Poupard, enviado do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na Palestina, se declarou preocupado com o fato do Exército israelense não diferenciar adultos e crianças em ofensivas militares. Com base em dados do DCI, a maioria das vítimas jovens não foi assassinada durante conflitos, mas por conseqüência de ações unilaterais das tropas de Israel, como bombardeios e atentados. Poupard também destacou que a idade das vítimas não corresponde à de potenciais inimigos. Em 2002, 43,2% das crianças mortas tinham menos de 13 anos.

A maior parte das crianças palestinas que escaparam de ataques militares não saiu ilesa – todas já foram vítimas de violência. Segundo o primeiro relatório de 2003 do DCI, 1,7 milhão de crianças palestinas vivem na Cisjordânia e na Faixa de Gaza (territórios invadidos pelo Exército israelense) e quase todas já sofreram pelo menos um tipo de violação de seus direitos: de restrições a acesso a escolas até graves problemas físicos e psicológicos. O mesmo estudo aponta que, desde o início da Intifada, cerca de 10 mil jovens sofreram algum tipo de ferimento causado por soldados de Israel.

Terror constante

As agressões às crianças e aos adolescentes são justificadas pelo Exército israelense e pelo primeiro-ministro do país, Ariel Sharon, na medida em que as crianças integrariam grupos terroristas e seriam usadas para espionar assentamentos judeus na Palestina e atacar militares em emboscadas.

A Anistia Internacional divulgou recentemente um relatório que aponta a polícia israelense como grave violadora dos procedimentos judiciais por deter crianças palestinas no meio da noite para submetê-las a interrogatórios.

Segundo a AI, os procedimentos judiciais regulares são com freqüência infringidos na prisão de crianças. Elas são detidas durante a noite para serem interrogadas, ao invés de serem convocadas para comparecer a uma delegacia durante o dia.

O relatório afirma que as crianças são colocadas muitas vezes sob pressão durante os interrogatórios, nos quais acabam sendo alvo de gritos, insultos e ameaças. “Em alguns casos, as crianças foram espancadas pela polícia”, afirmou a Anistia Internacional.

Mas as violências cometidas contra crianças não são apenas militares. “A outra face do horror é a progressiva piora da situação social dos palestinos”, comentou o chefe da divisão alemã do Unicef, Dietrich Garlichs, que denuncia: uma em cada três crianças passa fome nos territórios ocupados. De fato, por embargos comerciais e bloqueios militares, Sharon está criando uma situação de calamidade social na região.

De acordo com um relatório do Unicef, divulgado no início do ano, 500 mil crianças palestinas se alimentam com aquilo que é enviado pela ajuda humanitária. A principal razão da carência de comida é a pobreza – 57,8% das famílias da Cisjordânia e 84,6% das de Gaza vivem com menos de dois dólares por dia.

Um outro estudo do Unicef revelou que 75% das crianças palestinas que moram em territórios ocupados pelo Exército israelense sofrem algum tipo de distúrbio emocional, geralmente causado por freqüentes experiências de ofensivas militares e barulhos de bombardeios e disparos. Psicólogos da entidade avaliam: em meninos e meninas de até 5 anos, o medo cria manifestações constantes de ansiedade e problemas de fala. Nos de até 12 anos, além de reações de pânico e estresse, observa-se também muita agressividade. No grupo dos de 13 a 18 anos, o contato com conflitos gera condutas rebeldes e um sentimento de impotência e de retração do mundo.

Segundo o relatório de 2002 do DCI, grande parte dos problemas psicológicos e emocionais das crianças palestinas é agravado pela falta de acesso à educação. Desde o início da ocupação israelense, há 35 anos, 350 escolas foram fechadas ou destruídas – 18 delas foram transformadas em barreiras militares e outras 18 em centros de detenção. Além disso, as instituições de ensino permaneceram fechadas por ordem de soldados de Israel, em média, 35% do tempo, e, em alguns casos, por mais de um ano.

Para mais informações sobre a situação das crianças na Palestina, acesse a página da internet do Programa Internacional de Defesa das Crianças (em árabe ou inglês).

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