Encontrados por acaso no Arquivo do Estado, laudos mostram que Virgílio Gomes da Silva, preso político desaparecido em 1969, foi torturado e assassinado nas dependências da Operação Bandeirantes, o DOI CODI, em São Paulo. Família agora começa busca pelo corpo de Virgílio.
São Paulo – Gilberto da Cruz, Emílio Máttar, Roberto A. Magalhães e Paulo A. de Queiroz Rocha. Onde estão esses homens? Hoje, eles são a única pista que a família de Virgílio Gomes da Silva tem para tentar encontrar seu corpo, desaparecido há 35 anos. Virgílio, operário da indústria química e militante da Aliança de Libertação Nacional (ALN), foi preso pela ditadura militar em setembro de 1969 e nunca mais visto. Nesta quinta-feira (24), o Grupo Tortura Nunca Mais divulgou em São Paulo documentos encontrados no Arquivo do Estado que comprovam o assassinato de Virgílio por tortura nas dependências da Operação Bandeirantes (o DOI CODI-SP), no dia 29 de setembro de 1969. Roberto A Magalhães e Paulo A de Queiroz Rocha são os médicos que assinam o laudo do Instituto Médico Legal, datado de 30 de setembro, que atesta a morte do militante. Gilberto da Cruz e Emílio Máttar trabalhavam na época na Divisão de Identificação Civil e Criminal da Secretaria de Estado dos Negócios da Segurança Pública, sendo que o delegado Máttar era o diretor do órgão, que identificou o cadáver desconhecido como sendo o do preso político.
Os documentos divulgados nesta quinta foram encontrados no meio de 180 mil pastas pelo jornalista e escritor Mário Magalhães, durante pesquisas que realizava para o livro que está escrevendo sobre a vida de Carlos Marighella e da ALN. As informações até hoje secretas sobre o destino de Virgílio Gomes da Silva estavam “perdidas” no meio de dossiês que tratavam da atuação dos freis dominicanos durante a ditadura. Sobre tais papéis, um aviso manuscrito com a frase “Os símbolos 30-Z-160-4820, 4821, 4819 e 4918 não podem ser informados”. Na opinião da família, esta é uma prova de que houve uma ordem para o desaparecimento do corpo e o não comunicado da morte de Virgílio aos familiares.
Com o codinome de Jonas, Virgílio foi uma das lideranças na luta contra a ditadura militar no Brasil. Uma de suas ações foi o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, posteriormente trocado por 15 presos políticos, entre eles o Ministro Chefe da Casa Civil, José Dirceu. Preso pouco tempo depois do sequestro, Virgílio foi o primeiro brasileiro dado como desaparecido no processo da ditadura. Esta foi a versão oficial dada pelo Estado. Em 1995, Ilda Martins da Silva, sua esposa, recebeu o atestado de óbito do marido, por morte presumida por desaparecimento. Mas os papéis que comprovavam a morte do preso político existem há 35 anos – e sempre estiveram sob poder do Estado. A descoberta desses documentos vira de ponta cabeça a história oficial contada pelo país sobre o destino de seus desaparecidos políticos.
“Desde que meu pai morreu existe um laudo e nós só ficamos sabendo disso agora. Para mim, ele morreu esta semana, por isso estamos de luto. Minha avó morreu sem saber o destino do meu pai”, disse emocionado Vladimir da Silva, filho mais velho de Virgílio. “Estes documentos me enchem de esperança. Da mesma forma que eles apareceram por acaso, os de outros companheiros podem estar lá. Há uma urgência em se estudar este arquivo. Ao mesmo tempo, já que tudo foi registrado, queremos saber de quem partiu a ordem de ocultar o corpo do meu pai. Queremos rever este atestado de morte presumida. Estamos aqui não para pedir uma indenização, mas o reestabelecimento de uma verdade histórica. Não tenho esperança de que estas pessoas que são citadas nos laudos venham a público fazer este reconhecimento. Nunca vieram. Minha esperança é na Justiça”, explica Vladimir.
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