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Leonardo Boff: Próximo papa deve enfrentar crise ecológica e social

abr 7, 2005 | Geral

O futuro papa precisará pacificar a Igreja e enfrentar graves problemas que afetam o planeta, como as crises social e ecológica, defende Leonardo Boff. Para ele, João Paulo II criou divisões internas e fortaleceu grupos conservadores, como a Opus Dei.

Porto Alegre – “A Igreja Católica precisa enfrentar os grandes desafios colocados pela nova fase da humanidade. Dois problemas são especialmente urgentes: a justiça social e a justiça ecológica. Há uma degradação inominável do tecido social da humanidade com bilhões de pessoas sofrendo sob a miséria e pobreza ao lado de uma acumulação de riqueza e de meios de bem-estar como nunca antes na humanidade, apropriados por alguns países apenas”. A avaliação é de Leonardo Boff, um dos principais nomes da Teologia da Libertação no Brasil, ao comentar o significado do pontificado de João Paulo II e os desafios que estarão diante do futuro papa. Em entrevista concedida por e-mail para a Agência Carta Maior, Boff aponta o conservadorismo de João Paulo II como um dos fatores responsáveis por muitas divisões, decepções e amarguras dentro da Igreja Católica, e pelo fortalecimento de grupos conservadores como a Opus Dei e os Legionários de Cristo.

Leonardo Boff sentiu na pele o conservadorismo doutrinário do papado de João Paulo II. Em 1984, foi submetido a um processo, pela Sagrada Congregação para a Defesa da Fé, ex-Santo Ofício, também conhecido como tribunal da inquisição. O motivo: as teses apresentadas no livro “Igreja: Carisma e Poder”, que criticava a atual estrutura de poder e funcionamento da Igreja Católica. Em 1985, Boff foi condenado a um ano de “silêncio obsequioso” e afastado de todas as suas funções editoriais e de magistério no campo religioso. A pressão internacional sobre o Vaticano fez com que a pena fosse suspensa em 1986 e Boff pudesse retomar algumas de suas atividades.

Em 1992, o Vaticano voltou à carga, ameaçando o religioso brasileiro com uma nova punição. Antes que isso acontecesse, Leonardo Boff renunciou às suas atividades de padre e se auto- promoveu ao estado leigo. “Mudei de trincheira para continuar a mesma luta”, disse Boff na época. A partir deste momento, prosseguiu nessa luta como teólogo da libertação, escritor, professor, conferencista e assessor de movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e as Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), entre outros. Para ele, outro desafio do próximo papa será o de resgatar a espiritualidade como a dimensão humana de onde brotam valores de solidariedade, generosidade, cuidado e reverência, em uma sociedade cada vez mais dominada pela lógica do lucro e do consumo.

Agência Carta Maior: Qual a sua avaliação sobre o papado de João Paulo II? Qual é a herança que ele deixa?

Leonardo Boff: A herança mais importante do Pontificado é a própria figura carismática do Pontífice. Possivelmente ninguém vai guardar frase nenhuma dele. Mas sua imagem ficará por muito tempo, pois soube ser uma figura midiática com capacidade singular de dramatização em gestos precisos e palavras impactantes. Resgatou para a publicidade social a importância da religião como uma força capaz de arrastar multidões e de desestabilizar políticas de Estado como na Polônia. Esse Papa possui duas teologias antagônicas. Uma, explícita em suas palavras e escritos, teologia conservadora até com laivos fundamentalistas ao dizer, por exemplo, que o cristianismo é a única religião verdadeira fora da qual as pessoas correm risco de perdição, que a Igreja Católica é a única representante plena da Igreja de Cristo e as demais não seriam propriamente Igrejas mas apenas portadoras de elementos eclesiais e assim por diante. E outra implícita em seus gestos e práticas, uma teologia aberta ao diálogo inter-religioso, animadora do ecumenismo intereclesial, defensora dos direitos humanos e propulsora da paz contra a guerra. Estas duas teologias não se coadunam. Mas elas estão presentes na mesma pessoa do Papa. Como pastor é aberto e sensível a todos. Como doutor é estreito e duro em seus julgamentos doutrinários.

CM: Você crê na possibilidade de mudanças mais significativas no Vaticano ou a tendência mais forte é a manutenção de uma linha conservadora?

LB: Vejo que se farão muitas mudanças, pelo menos na atmosfera intra-eclesial. Este longo Pontificado criou muitas divisões, decepções e amarguras dentro da Igreja, entre os cardeais, bispos e conferências episcopais. Todos foram tratados com mão dura pela Cúria Romana que levava a política diuturna do Papa sobre toda as regiões da Cristandade. Esta tendência conservadora generalizada propiciou o surgimento de grupos também conservadores como a Opus Dei, os Legionários de Cristo, Communione e Liberazione, Movimento Catecumenal, Movimento Carismático e outros. Aí vicejaram cristãos, em grande parte, papalistas, infantilizados e aduladores.

Cultivaram um cristianismo apenas ritual e devocional, insensível às questões da justiça e da humanidade sofredora. Se não houver uma articulação entre fé e justiça dificilmente se poderá dizer que há evangelização e fidelidade à memória do Nazareno. A tendência é eleger um Papa que pacifique a Igreja porque a estratégia do mesmo seria perigosa e poderia aprofundar a divisão dentro da Igreja com uma migração fantástica de cristãos leigos, adultos, críticos da Igreja, vivida não mais como lar espiritual. Não deixariam de ser cristãos mas não freqüentariam as igrejas nem militariam em causas da Igreja.

CM: Quais os desafios que estão colocados para a Igreja Católica após a morte de João Paulo II?

LB: Os grandes desafios virão da nova fase da humanidade, a planetária. Aqui dois problemas são urgentes: a justiça social e a justiça ecológica. Há uma degradação inominável do tecido social da humanidade com bilhões de pessoas sofrendo sob a miséria e pobreza ao lado de uma acumulação de riqueza e de meios de bem-estar como nunca antes na humanidade, apropriados por alguns países apenas. O tema da justiça social, da democratização dos bens e da inclusão na mesma família humana será o mais desafiador. E ainda existe a crescente degradação dos ecossistemas da Terra cujos níveis já atingidos podem ameaçar a base fisico-química da vida e do planeta Terra. Podemos ir ao encontro de desastres de conseqüências perversas para milhões de pessoas. A Igreja se sente urgida junto com outros movimentos a ajudar a criar outros padrões de relacionamento para com a natureza, outro estilo de consumo, mais responsável, solidário e contido.

E por fim, um tema importante é o resgate da espiritualidade como aquela dimensão humana de onde brotam valores de solidariedade, generosidade, cuidado e reverência, importantes para uma humanidade unificada que deve aprender a conviver com hospitalidade, tolerância e respeito das diferenças. A espiritualidade se rege por outra lógica do que aquela da produção e consumo dos bens materiais, a lógica da gratuidade, da doação, da compaixão e do sentido de cuidado para com toda vida e de veneração para com o mistério que cerca toda a realidade. É no interior desta espiritualidade que surge o tema de Deus e da religião, compreendidas como expressões diferentes de uma mesma experiência espiritual de base, da Fonte donde tudo provém denominada também de Deus. Cultivar este espaço nas pessoas e nas comunidades é tarefa das religiões e das igrejas.

O Papa deve suscitar e alimentar esta dimensão espiritual nas pessoas e nas diferentes culturas, independentemente de sua filiação ou não a um determinado credo. O importante é que o Cristianismo junto com outras tradições espirituais não deixe que se apague esta chama sagrada no interior de cada ser humano sem a qual a humanidade mergulharia no sem sentido e na escuridão.

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