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Mídia insiste em estereotipar negro, dizem especialistas

jun 3, 2004 | Geral

Cena de “Cidade de Deus”, dirigido por Fernando Meirelles. Além deste filme, a novela “Da cor do pecado” e a cobertura jornalística do seqüestro de um ônibus da linha 174, no Rio de Janeiro, seriam exemplos de estereotipagem da imagem do negro no Brasil, dizem especialistas.

São Paulo – É verdade que o telejornal mais assistido do país, o Jornal Nacional, da Rede Globo, estreou recentemente um apresentador negro. Também é verdade que atrizes e modelos negros e negras participam cada dia mais de novelas, filmes e propagandas. Mas não importa. Para boa parte dos especialistas no assunto, a imagem do negro veiculada na mídia brasileira ainda é estereotipada.

Há exemplos dessa deturpação em produtos conhecidos pelo grande público. Seria o caso, por exemplo, da cobertura jornalística do seqüestro de um ônibus da linha 174, no Rio de Janeiro, quando um jovem negro matou uma professora depois de uma ação desastrada da polícia.

“A invisibilidade do negro no cinema, na literatura e no jornalismo só é quebrada em casos como este, em que o afrodescendente é mostrado como protagonista da criminalidade, como instrumento da violência urbana no país”, afirma Emanuelle Oliveira, pesquisadora da Vanderbility University, nos Estados Unidos. Ela foi uma das especialistas que participaram do Seminário Internacional Mídia e Etnia, promovido na última terça-feira (25) pelo grupo Mídia e Etnia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Filmes de sucesso como Cidade de Deus, do diretor Fernando Meirelles, também reforçam essa tese. Para Emanuelle, Meirelles mostra uma perspectiva estereotipada do crime e da população negra. Ao tentar uma abordagem de denúncia social, ele acaba, em sua opinião, marginalizando ainda mais o negro. Para a pesquisadora, o filme mostra que a única opção de ascensão é o êxito individual, como o do protagonista, e isso se reflete na nossa sociedade, em que os afrodescendentes se destacam por serem atores, cantores ou jogadores de futebol.

Preferência nacional, as novelas influenciam a formação de conceitos e de valores da população brasileira. Pautam os debates sociais e são responsáveis por posições políticas. Por isso, também exercem papel importante na cristalização do racismo. Nelas, os negros sempre têm papéis secundários, à serviço dos brancos. Muitos celebram a atual novela das 19h da Rede Globo, “Da Cor do Pecado”, como uma conquista nesse sentido. A novela tem uma protagonista negra e vem obtendo grande audiência, atribuída à abordagem da questão racial.

Entretanto, esse pretenso aumento da participação negra nos meios de comunicação também é criticado. A novela é considerada racista e preconceituosa. “O próprio nome se refere à mulher negra como amante, perturbadora das relações familiares estáveis. Além disso, há uma pequena participação de negros na novela e eles estão “embranquecidos”. A Globo não deixou de mostrar seu preconceito”, acusa Dennis de Oliveira, professor de Jornalismo da ECA-USP, que está realizando uma pesquisa sobre a novela.

Segundo ele, o programa mostra diversas formas de racismo e de enfrentamento do racismo. O personagem que assume sua identidade negra e sai para o confronto é considerado um vilão e acaba sendo punido. A protagonista e heroína adota uma postura de passividade e vitimização, características ligadas à sua bondade.

Vale lembrar o velho chavão: os meios de comunicação são reflexo do que existe na sociedade. “A estética da mídia é a estética das elites, branca e higienizada. É preciso forjar uma abertura para que se incluam outras estéticas, como a dos negros e a dos índios. Para reverter esse quadro, essas camadas precisam ter acesso à produção cultural, o que depende de uma luta no campo político, econômico e ideológico. Só assim será possível superar o preconceito”, acredita Emanuelle.

Despreparo no jornalismo

Foi só a partir de 1988, com todas as atividades reflexivas e críticas que marcaram o centenário da Abolição da Escravatura, que a mídia brasileira começou a tratar da questão étnica. O país se viu cara a cara com a questão do racismo, que até então fazia questão de negar, afirmando ser uma democracia racial. “Antes, os afrodescendentes só apareciam nos jornais e revistas brasileiros em determinados temas, como o futebol e o samba, e na seção policial. Não havia nenhuma preocupação com o segmento”, afirma Ricardo Alexino, pesquisador da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) sobre conflitos étnicos na mídia.

A Constituição brasileira, elaborada no mesmo ano, tornou imprescritível e inafiançável o crime de racismo. Isso fez com que a imprensa tomasse mais cuidado com a abordagem das questões étnicas, por medo da perda econômica e moral que os possíveis processos trariam. Além disso, Alexino diz que a imprensa, recém saída do regime ditatorial, passou a assumir o papel de Ministério Público. As matérias de denúncia começaram a ser a principal fonte do jornalismo, que passou a defender os indefesos, inclusive os negros.

“Mas isso não quer dizer que a imprensa tem agido bem. Há avanços e retrocessos nos discursos que nos fazem pensar se os erros são intencionais ou devido à falta de preparo dos editores”, pondera. Segundo Alexino, a temática dos grupos minorizados – que são maioria quantitativamente, mas têm pouca representação social e política – não é abordada nos cursos de jornalismo.

Assim, os jornalistas não aprendem a lidar com ela nem em relação ao conteúdo nem à linguagem adequada, e acabam reforçando estereótipos. “Quando falam sobre os conflitos na região da ex-Iugoslávia, dizem que são conflitos étnicos; quando eles ocorrem na África, são conflitos tribais”, exemplifica o pesquisador.

Semana da África

A discussão sobre mídia e racismo ocorre no mesmo período em que se celebra a Semana de Solidariedade aos Povos Africanos. Uma série de eventos tem sido realizada, como debates com embaixadores africanos e apresentações artísticas em reconhecimento aos povos africanos pela contribuição na formação étnica, cultural e histórica da sociedade brasileira.

Nesta terça-feira (25), Dia da Libertação da África, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), um ato comemorativo aconteceu na Assembléia Legislativa de São Paulo e contou com a presença da ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e de diversas entidades de luta contra o racismo. Segundo a ministra, com a posse do presidente Lula, as relações entre o país e o continente africano ganharam nova direção, a do fortalecimento. Já estão em andamento 40 acordos firmados entre o Brasil e cinco países africanos: Namíbia, Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe e África do Sul

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