Padre José Amaro, Gabriel Domingos do Nascimento, Francisco de Assis e Souza e Geraldo Magela. Esses nomes são alguns entre diversos na lista de ameaçados de morte na região de Anapu (PA), onde a missionária Dorothy Stang foi assassinada em fevereiro deste ano.
Na tentativa de ampliar a solidariedade com a região, dois deles participaram ontem de ato na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo em que denunciaram a violência que vem sofrendo todos os dias. “Os crimes já aconteciam antes e continuam acontecendo”, relatou Pe. Amaro.
Pároco da Igreja de Santa Luzia de Anapu, Amaro trabalhava com Dorothy há 15 anos. “Quando nós participávamos dos movimentos missionários e a Santa Sé nos expulsou, Dorothy nos acolheu”, lembrou.
Segundo ele, a maior parte das terras na região pertence à União, mas na década de 70 foram loteadas pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em contratos que duravam cinco anos e tinham como objetivo tornar as áreas produtivas. No entanto, os contratantes iniciais venderam as terras para terceiros e até hoje a situação não foi regularizada. As áreas, abandonadas por anos, foram ocupadas por posseiros e hoje fazem parte de dois Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS).
“Antes de Dorothy ser morta, nós enviamos um documento aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário denunciando a situação das terras e as ameaças sofridas por nós, mas nada foi feito”, diz Amaro. “Já se passaram dois meses e nada foi feito. Entre os quatro acusados que se entregaram à Polícia, dois não falam nada e um terceiro, Rayfran das Neves Sales, conhecido com Fogoió, já sofreu tentativa de assassinato porque falou. Nós não confiamos na Polícia Militar e na Polícia Civil, que bate, maltrata e mata os trabalhadores”, completou.
Ontem, o advogado de Viltamiro Bastos de Moura, o Bida, pediu à justiça liberdade provisória do fazendeiro, acusado de ser o mandante do crime. Na acareação, a polícia questionou Moura sobre o fato de a arma que matou a missionária Ter sido encontrada na fazenda dele, mas ele não se manifestou.
Gabriel Nascimento, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anapu, concordou que a lentidão dos três poderes prejudica muito a luta pela terra. “As grandes autoridades ainda não se sensibilizaram com a tortura dos lavradores. Mas temos pessoas organizadas e não vamos nos calar”, afirmou.
Para Nascimento e Amaro, a saída do caso é a federalização, já que o histórico de julgamentos de crimes do latifúndio no Pará é muito ruim. Dos milhares de casos de trabalhadores e trabalhadoras mortos no estado, apenas 75 foram a julgamento e poucos tiveram condenação.
Gilmar Mauro, da Direção Nacional do MST, também esteve presente e pediu a federalização do caso. “Mas não podemos apenas pedir que sejam punidos. Essa violência vai matar mais gente porque ela só vai ser resolvida quando mudarmos a estrutura arcaica do campo, em que vivemos há 500 anos, e quando na cidade todos e todas tiverem acesso a trabalho, lazer, saúde, educação, moradia”, afirmou Mauro.
“A maior homenagem que podemos prestar a Dortothy, aos mortos de Eldorados dos Carajás e todos os outros é compromisso firmado que temos que lutar. A melhor manifestação é a ação concreta”, finalizou.
No ato, as direções da Associação de Professores da PUC (Apropuc) e da Associação de Funcionários (Afapuc) apresentaram uma carta de reivindicações que será apresentada ao governo federal. O documento pede a punição dos culpados pelo assassinato da missionária, a federalização do caso e a consolidação dos PDS na região, além do realização das metas estabelecidas pelo governo para a Reforma Agrária.
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