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Carlos Lessa acusa elite de frustrar sonho do governo

nov 25, 2004 | Geral

Durante ato político de desagravo, o economista destituído da presidência do BNDES afirmou que seu afastamento é mais uma manobra da elite brasileira. Lessa recebeu o apoio de parlamentares, dirigentes sindicais, funcionários do banco e de entidades como a OAB e o MST.

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Rio de Janeiro – “Nós estamos assistindo a mais uma manobra astuciosa da elite brasileira. É mais uma tentativa da elite de frustrar os sonhos populares”. Esse foi o comentário mais direto que fez o presidente destituído do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, sobre o próprio afastamento do cargo durante o ato político de desagravo realizado nesta sexta-feira (19) no saguão de entrada da sede do banco no Rio de Janeiro. Cercado por cerca de 300 pessoas, entre economistas, parlamentares, dirigentes sindicais e funcionários do BNDES, Lessa avisou logo na chegada que falaria “apenas como professor” e que deixaria para fazer uma análise da política econômica do governo Lula somente depois que transmitisse oficialmente o cargo a seu substituto. “Quando não for mais presidente do BNDES, aí sim falarei como economista”, disse.

A decisão de não criticar diretamente o modelo econômico, no entanto, não impediu que, visivelmente emocionado, Lessa utilizasse sua reconhecida capacidade retórica para deixar claro que, na sua opinião, está se consolidando uma mudança de rumos no governo. Afirmando que nunca havia aspirado ser banqueiro, ele começou seu discurso explicando os motivos que o levaram a deixar a reitoria da UFRJ “seis meses após ter sido eleito com 85% dos votos” e aceitar o convite para presidir o BNDES. “Aceitei a convocação porque o presidente [Luiz Inácio Lula da Silva] me deu total apoio para compor uma diretoria integrada por profissionais competentes do BNDES e do Banco Central. Aceitei a convocação porque o presidente disse que tinha para mim uma função estratégica que ele assim anunciou: Lessa, quero que você dirija o banco dos sonhos dos brasileiros”, disse.

O problema, como se percebe agora, é que Lessa e Lula talvez não estivessem sonhando o mesmo sonho. “Interpretei as palavras do presidente como um convite para ser parceiro de um projeto de desenvolvimento nacional com inclusão social. Cooperar com esse sonho me levou a ser um homem da situação, o que mudou minha trajetória de vida, pois sempre estive na oposição ao sistema que oprime o povo brasileiro”, disse. O economista sugeriu ainda que outros interesses teriam prevalecido sobre a intenção inicial do governo: “Ao longo de minha vida, sedimentei uma convicção importante. Considero a soberania e a robustez da nação uma pré-condição fundamental para a solução do problema social. Para mim, isto impõe o primado dos interesses nacionais sobre os demais interesses”.

Definindo-se como “neonacionalista” e “neopopulista”, Lessa afirmou que, apesar de ter nascido em uma rica e tradicional família carioca, ele aprendeu a “não confiar na elite” e a “amar esse povão que é a verdadeira civilização brasileira” quando tinha 22 anos. “Já estou com 68 anos. Façam a conta e vocês podem ver por aí que não é fácil mudar as minhas convicções”, disse. Depois de afirmar que “a oligarquia que libertou os escravos ainda é maioria no Congresso Nacional”, Lessa voltou a criticar as classes dominantes. “A elite brasileira é de uma crueldade total. Nossas elites querem desfrutar de um padrão de vida de primeiro mundo e, ao mesmo tempo, ter mão-de-obra doméstica ultrabarata. Querem colocar no exterior as riquezas produzidas aqui”, disse.

PT de luto

O ato político em homenagem a Carlos Lessa foi prestigiado por diversas entidades de classe, como a CUT, o MST, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e o Clube de Engenharia. Também enviaram representantes os sindicatos dos economistas, dos metalúrgicos, dos médicos, dos jornalistas e dos funcionários do BNDES, entre outros. Partidos de esquerda como o PT, o PCdoB, o PCB e o PSOL também marcaram presença no ato de desagravo ao economista. Entre os parlamentares, compareceram os deputados federais petistas Chico Alencar e Antonio Carlos Biscaia e a comunista Jandira Feghali. Os deputados estaduais petistas Alessandro Molon e Carlos Minc também prestaram solidariedade a Lessa, que recebeu ainda das mãos do vereador Eliomar Coelho (PT) uma moção de apoio aprovada na Câmara dos Vereadores do Rio.

Além da manifestação oficial dos partidos, foram lidas mensagens de apoio enviadas pelos senadores Eduardo Suplicy (PT-SP) e Roberto Saturnino Braga (PT-RJ) e pelo deputado federal Fernando Ferro (PT-PE). Lessa foi presenteado com uma bandeira do Brasil que, com os dizeres “para o mestre do desenvolvimento econômico e social”, foi assinada por todas as autoridades e entidades presentes. Também fez sucesso durante o ato uma bandeira do PT toda preta, com a estrela em branco. “É nossa nova bandeira, representando o estado de luto em que nos encontramos todos os que votamos em Lula”, disse uma funcionária do BNDES, que preferiu não se identificar. “Senão, o Mantega rançosa pode querer me punir”, justificou.

Mestre de cerimônias do ato, Chico Alencar afirmou que estaria sendo protocolado nesta sexta (19) em Brasília o abaixo-assinado em defesa da permanência de Lessa à frente do banco. O documento foi assinado por dezenas de personalidades da economia, da política e da cultura, como Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Emir Sader, Carlos Nelson Coutinho, Roberto Frejat e Beth Carvalho, entre outros. “Lamentavelmente, o presidente Lula sequer esperou a chegada do abaixo-assinado e preferiu ignorar os apelos dessas pessoas que formam a consciência nacional e que tanto o ajudaram a se eleger”, disse Alencar. Muito aplaudida, Jandira Feghali afirmou que “a demissão de Lessa é a demissão de todos os que querem mudar os rumos do país” e disse que o mais justo seria a saída do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. “No embate entre um homem probo e outro que vive fugindo para não explicar as remessas de dinheiro que fez para o exterior pelas contas CC-5, o primeiro acabou sendo derrotado”, disse.

Qual o rumo do BNDES?

Uma das maiores preocupações das pessoas presentes ao ato no Rio dizia respeito ao rumo político que seguirá o BNDES daqui pra frente.Vice-presidente da ABI, o jornalista e ex-deputado federal Milton Temer afirmou não ter se surpreendido com a demissão de Lessa, uma vez que a política adotada por ele à frente do banco era divergente daquela defendida pelos setores do governo que pertencem ao mercado financeiro. “O que me surpreendeu, e eu o saúdo por isso, foi a capacidade do Lessa de resistir durante dois anos à sabotagem que esses setores tentaram fazer ao BNDES”, disse.

Para Sidney Pascotto, do Conselho Federal de Economia, a demissão de Lessa traz uma mensagem clara. “A mudança de orientação do BNDES significa que o governo Lula abandona de vez o projeto de desenvolvimento social e distribuição de renda”, disse. O economista Paulo Passarinho também afirmou acreditar que os rumos do banco serão definidos de agora em diante pela pauta do mercado financeiro. Ele, no entanto, comemorou a volta de Lessa ao antigo reduto. “É melhor tê-lo conosco, com sua capacidade de fazer uma oposição inteligente e sem bravatas, do que vê-lo consumido pelo governo Lula e seu neoliberalismo envergonhado”, disse. Presidente do Clube de Engenharia, Raymundo Oliveira, sintetizou o estado de espírito de todos os que foram prestar homenagem ao presidente destituído do BNDES: “Nossa desgraça foi ter votado no Lula para, na verdade, eleger o Henrique Meirelles”.

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